Eu sou uma mãe separada do pai da minha filha e vivemos em regime de guarda compartilhada. Ela dorme dois dias em cada casa e passa um final de semana com a mãe e outro com o pai – e está muito feliz com isso. Mesmo. Vocês precisam ouvi-la falar sobre como as duas experiências são ricas e complementares pra ela… É de emocionar. Para uma moça que viveu uma separação dos pais bastante dura e difícil, ver minha filha feliz assim é também uma forma de cura. Cada vez que a vejo feliz com o vai e vem, me curo um pouco mais. Hoje sei que é possível construir um caminho feliz para uma criança mesmo quando seus pais não desejam mais viver juntos.

Ler isso pode dar a sensação de que foi fácil. Não, não foi. Foi um processo bastante difícil pra mim esse de estar parte do tempo com ela e parte do tempo sem ela. O início foi muito doloroso, sofri muito. E os finais de semana eram ainda piores. Ela só tinha 3 anos… E eu não estava preparada pra ficar sem ela. Foram inúmeros fins de semana preocupada, chorando, sentindo a falta do meu bebê – recém desmamado. Eu não tinha muito prazer aos finais de semana longe dela… Foram muitos domingos tristes pra mim.

Mas as coisas foram melhorando. Fui encontrando meu novo lugar no mundo. Vendo e experimentando que uma mãe NÃO PRECISA estar todo o tempo com sua filhinha, colada, grudada. Que também era bom estar só. Que, na verdade, era fundamental estar só. Aos poucos, fui reencontrando meu lugar, meus prazeres, minha vida. É difícil a gente se reconhecer ~ apenas ~ como mulher depois que se torna mãe e eu vivenciei bem essa transição.

Mas aí a mágica aconteceu.

Eu, uma recém mãe, completamente apegada à filha, aprendendo sobre como a presença da mãe era importante, a cada 2 dias me via separada dela. E comecei a transformar meu tempo em tempo REALMENTE para mim. Estudei. Escrevi. Encontrei pessoas. Saí. Dormi. Assisti a filmes. Escrevi minha tese. Meus livros. E aos poucos fui me vendo mais e mais fortalecida porque ~ apenas ~ tinha tempo para quem eu sou como indivíduo, para além da mãe que sou.

No início, as segundas-feiras eram dias híbridos. Ou eu estava arrasada de saudade da filhotinha ou estava exausta por estar com ela sozinha, dando conta de tudo, desde a sexta-feira. Era hora de ressignificar isso também.

Bem, muito tempo se passou – 3 anos e pouco. E hoje me sinto muito feliz com as segundas-feiras. E devo isso a uma coisa.

À carne de panela.

Calma que eu explico.

Minha filha é muito seletiva pra comer – algo que por aí se chama “enjoada”. Bom, parto do princípio de que é preciso respeitar o gosto individual de cada um. Se eu não gosto de mocotó, por exemplo (e eu realmente não gosto), não posso aceitar que me chamem de enjoada por conta do meu gosto pessoal. Penso o mesmo para as crianças. Elas estão em fase experimental, experimentando coisas. É normal que não gostem de muitas delas agora. Depois, conforme forem crescendo, as coisas mudam. Eu mesma nunca gostei de nata (ou creme de leite). Hoje tenho que me segurar pra não entupir minhas artérias comendo de colher um pote inteiro. É assim, gente, tenhamos calma que as crias são assim. Não adianta obrigar, nem rosnar, cada um tem seu tempo, parem de obrigá-las a comer. Minha filha é assim. Não adianta você fazer a comida mais deliciosa do mundo, se ela sentir um pedacinho de cebola cozida lá, esquece, vai ter que fazer um pão com coisa pra criatura não morrer de fome, porque ela não vai comer.

Mas a minha carne de panela…

Minha carne de panela a leva à loucura.

Ela surta.

É só sentir o cheiro que pira. Adora. Ama. Manda facilmente dois ou três pratos pra dentro. E não tem nada demais naquela panela, apenas carne, cebola (que eu deixo refogar até queimar), salsinha e sal.

Conforme eu fui me habituando ao fato dela passar finais de semana com o pai, eu a recebia na segunda-feira muito feliz e disposta. E geralmente morta de fome. Não porque o pai não cozinhe ou não a alimente, longe disso – inclusive porque ele é um ótimo cozinheiro. Mas porque ela brinca tanto com as irmãs, e pula tanto, e vive tantas aventuras, que encara a nossa vida aqui, só nós três (eu, ela e meu namorado) como um lugar de recarregar energias. Ela mesma usa essa expressão.

Às segundas-feiras em que vou me reencontrar com ela, eu a pego na escola, passamos na padaria e seguimos diretamente pra casa. Nessas circunstâncias, estamos morrendo de saudades uma da outra. A gente se beija, se abraça, se agarra, diz que se ama. E então chegamos em casa e nos dedicamos a criar uma coisa muito boa. E criamos um ambiente muito bom, muito gostoso.

Das coisas da infância da minha filha, não posso controlar aquelas que virarão memórias afetivas. Mas essa, das segundas-feiras do nosso reencontro, é uma certeza pra mim. Porque o que acontece é pura mágica. E por que? Porque A GENTE SE DEDICA A CRIAR ISSO. Ativamente.

Há música. Há paz. Há meias luzes. Há uma mãe cheia de saudade e uma filha querendo colinho de mãe.

E há cheiro. O indescritível cheiro da carne de panela desta mãe que vos fala.

E hoje foi uma noite dessas. Uma mãe cozinhando, uma filha um pouco desenhando e um pouco procurando os significados dos nomes na internet pra escolher o nome que daria a cada personagem que estava criando, um ambiente calmo e tranquilo. Só música e cheiro de carne de panela no ar. A cada pouco ela vinha e me abraçava, e me dizia que me amava, e que tinha sentido a minha falta, e voltava pro desenho.

E dane-se o fim de semana que eu tive, se foi simples, se foi complexo, se foi fácil, se foi difícil. Todo aquele clima me reconstruía, nosso laço se fortalecia, a gente se tornava mais unidas.

Estou escrevendo isso por três motivos. Primeiro: pra dar uma esperança às moças recém separadas, que estão se vendo pela primeira vez longe das crias, se sentindo galinha perdida sem rumo sem os pintinhos. Amigas, sei que é difícil. Mas passa. E quando vocês estiverem prontas, vão encontrar um novo mundo sem os filhos. Eu garanto. Em segundo, pra dizer que – SIM! – é fundamental estar sem os filhos. E olha que quem está falando sou eu, aquela que não conseguia conceber a possibilidade da separação… É fundamental. É necessário. É urgente por uma questão de saúde mental. E é também por isso que é tão importante apoiarmos as mães solo. Dar vale-nights de presente pra elas. Compor uma grande rede ao redor dessas mulheres. Elas precisam de momentos longe dos filhos, inclusive para se verem como seres individuais novamente. E, em terceiro: pra dizer que tudo isso também é maternidade real, vivida muito realmente mesmo.

A gente tende a chamar de “maternidade real” só os tiros, as porradas e as bombas, mas isso também é real. Carne de segunda feita na pressão pra ficar mais mole, com cebola refogada, alho e sal, é bem real. Criança desenhando na mesa da sala é bem real. Musiquinha tocando é bem real (e a playlist que a gente ouviu hoje foi essa, compartilho). Tão real quanto a gente pedir pra criança fechar as portas dos quartos quando o vapor começa a subir pra não dormir com cheiro de carne no cangote. Tão real quanto pedir pro seu namorado jantar mas se lembrar de deixar um pouco pra sobrar pro almoço da criança do dia seguinte, porque assim a gente não precisa se descabelar além do descabelado rotineiro, que já é muito, pra dar conta do recado.

Se a gente pena, sofre e chora por ser mãe num mundo desse? Ô. Muito. Quase todo dia.

Mas nos outros dias desse “quase”, dá também pra ressignificar uma segunda-feira apenas porque a gente fez uma carne de panela com molho e a criança matou dois pratos enquanto contava a origem do seu nome e dos nomes das irmãs.

Tenham esperança, irmãs.

A felicidade não está numa vida perfeita.

Ela pode estar ~ apenas ~ numa segunda-feira regada a carne de panela, desenho de criança e Cartola cantando “O Sol Nascerá”.