Quando engravidei (sem planejar) jamais poderia predizer tudo o que ainda viveria. Era final de novembro de 2011 e eu estava há 15 dias da seletiva nacional para as Olimpíadas de 2012. Como sempre, apaixonada pelo meu esporte, treinando feito louca. Sou atleta de remo desde que me entendo por gente, comecei aos 12 anos. Parei na época da faculdade e voltei num rompante no início do ano em que engravidei.

2011 foi um ano curioso. Descobri um livro que mudou a minha vida. Descobri o feminismo. Redescobri a escrita. Redescobri o remo e todos os sonhos que o envolviam. Estava decidida: vou ser a atleta que posso ser.

Quando era mais nova, o que mais ouvia era que eu era baixinha e não tinha o biotipo. Foram anos de dedicação sem uma ficha a ser apostada em mim. Além disso, me faltavam recursos internos para fortalecer minha vontade. O feminismo me caiu como uma luva e entendi que fazia parte do sistema dizer que nós mulheres não podemos – principalmente no meio esportivo. No meu caso, seria o tamanho. No entanto, certamente, a menina com o biotipo “certo” teria qualquer outra desculpa pra não lograr.

“Vá fazer a sua arte” – eu me dizia todos os dias quando ia remar. E remei muito naquele ano, completamente crente em mim. Foi um exercício de autoconfiança, mesmo que, em diversos momentos, eu derrapasse em anos de subestimação.

A gravidez veio como um balde de água fria na minha carreira esportiva que estava prestes a começar. Sem contar o plus de gravidez e, consequentemente, maternidade solo… Eu tinha mil ilusões sobre como seria tranquilo ser mãe e atleta.

Fiz a seletiva nacional mesmo sabendo que não poderia ir às Olimpíadas. Como eu já era praticante de remo, não fui proibida de remar durante a gravidez. O médico apenas recomendou baixa intensidade, já que a frequência cardíaca do bebê aumenta durante o exercício. Eu corri, pedalei, remei, fiz musculação até onde aguentei (7 meses de gestação). Me chamavam de louca pela Lagoa, mas foi a melhor coisa que fiz. Meu corpo pedia movimento – minha cabeça também. Ainda que muita gente trate a gravidez como doença, existe um número grande de mulheres que continua treinando e até competindo estando grá- vidas. Ou seja, se seu corpo já está acostumado com certo tipo de atividade física e sua gravidez é de baixo risco, não há impedimento algum para você realizá-la.

Ao contrário do que me diziam, não tive um parto normal fácil porque era “forte”. Entrei em trabalho de parto com 42 semanas e 5 dias e depois de 26 horas, terminei numa cesariana. O que aprendi com minha experiência foi que me faltou um grau de relaxamento e segurança emocional. Mesmo que eu tivesse matado no peito a ideia de ser mãe, lá no meu íntimo tinha algo dolorido.

No pós parto, eu jorrava leite e sentia orgulho daquela peitança que saciava meu pequeno mamute – meu filho nasceu com 4,5kg e ganhava peso loucamente. Assim que me foi autorizado, comecei a fazer caminhadas. Progredi para corridas e remoergômetro (uma máquina de remo). Ouvi muito que meu leite ia secar. BALELA. Eu me hidratava e me alimentava super bem e isso é o mais importante para a amamentação bem sucedida de quem faz esporte. A amamentação corresponde a mais ou menos meia hora de corrida em termos de gasto energético e eu ainda amamentava em livre demanda – o que faz produzir mais leite.

Somando ao gasto energético do remo, eu comia até as paredes. Minha amamentação durante 1 ano e 4 meses foi impecável, saudável e amorosa. Em resumo, exercício não atrapalha a amamentação.

Quando Bento tinha 3 meses, me senti pronta pra voltar a remar na Lagoa. Nos primeiros meses, o levava para o treino. Dava de mamar, corria pra água e voltava voando já com o peito pra fora.

Ouvi muita coisa quando voltei. A primeira foi que eu não ia voltar depois de ser mãe. Ah, claro, porque a gente morre depois que vira mãe e comigo não ia ser diferente. Não aceitei essa sentença e todos os dias pensava:

“Pode ser que leve mais tempo, mas eu chego lá”

O passo mais importante para me manter no esporte enquanto mãe solo foi aceitar que eu precisaria da tal aldeia para educar uma criança. Junto com ela, de muita humildade. Eu, sempre tão independente, tive que fazer o caminho contrário. Minha mãe e meu pai foram alicerces e, junto com eles, amigas e amigos que me davam de presente vale-treinos de sábado 6 da manhã. Não é pra qualquer um, vai? Eu solicitava a aldeia e tomava alguns “nãos”. Aprendi a aceitá-los sem me sentir rejeitada. Meus esquemas pra treinar mais pareciam um se vira nos 30. Cada semana, uma semana, cada dia, um dia. O importante era seguir.

Não voltei treinando como eu gostaria, vivia exausta, não dormia. Quando me convidaram pra voltar a remar, ofereceram pagar uma babá para ficar com meu filho enquanto eu treinava e isso não aconteceu. Provavelmente, tinham a expectativa de que eu voltaria de onde parei e isso também não aconteceu. Pelo contrário, muitas vezes, fui cobrada a ter horários rígidos e mal sabiam o que eu vivia enquanto mãe. Solo.

Como não recebia dinheiro pra remar, eu trabalhava como fisioterapeuta, remava e era mãe de um recém nascido.

Certa vez, um técnico me disse: “Você até que tem potencial, mas sendo mãe solteira, não vai conseguir (ir às olimpíadas)”.

Eu havia atrasado 15 minutos porque minha bicicleta havia quebrado. Eu ri. Ri porque estava forte e empoderada. O feminismo me permitiu ver que muitas coisas negativas que me diziam ou faziam eram puro machismo. Cabia a mim descartar, driblar, curar.

E ensinar.

Ensinar aos outros que as mães podem ser incluídas e que para elas renderem como profissionais, só precisam saber que seus filhos estão seguros. Portanto, uma política que apoie a maternidade se faz necessária. Temos que ser as primeiras a acreditar nisso. Durante as Olimpíadas vetaram a entrada do meu filho no hotel que fiquei e, por duas semanas, além das que eu estava fora, só o via dentro do carro por 5 minutos. Faltou sensibilidade…

Mesmo cansada e cheia de olheiras, as horas que passava remando me revigoravam corpo e mente. Me faziam bem. Toda vez que vejo uma mãe culpada por deixar o filho para fazer algo que a faz bem, encorajo-a:

“Você também é protagonista nessa história”.

Nossos filhos precisam de mães sadias. Se eu tivesse aberto mão do remo, meu filho teria uma mãe infeliz.

O videogame foi ficando mais fácil com o passar do tempo. Com 1 ano, passei a dormir uma noite inteira e voltei a competir. Com 2, fui campeã brasileira. Com 3, ingressei pela primeira vez na seleção brasileira de remo. Com 4, ganhei o pré olímpico, me classifiquei e competi as Olimpíadas.

Como não pensar que sou muito melhor depois de ser mãe? Meu filho, de “pacote pesado”- como uma vez um colega se referiu – passou a ser o meu espinafre.

Atualmente, Bento vai comigo para os treinos e me aguarda. Me virando nos 30 como sempre, levo brinquedos, lanches, tintas, qualquer coisa que o distraia enquanto remo. Na beira d’água, ele invariavelmente grita que sentirá saudades sabendo que daqui a pouco irá matá-la.

Meu barco vai se distanciando. Ficamos naquela cena poética.

Enquanto ele enxerga a luta e a paixão da sua mãe, eu torço para que o meu meio enxergue também. Enxergue e acolha. Que seja a aldeia. E que essa tal aldeia me permita ainda fazer a minha arte por anos e anos.

NOTA DA EDITORA:

A Revista Digital CIENTISTA QUE VIROU MÃE (que enviamos para nossas assinantes) estava em fase final de editoração quando recebemos a notícia de que Fernanda Nunes era uma das 9 brasileiras a figurar na lista #100Mulheres da BBC. É mais do que um orgulho contar com Fernanda em nosso grupo de escritoras: é a motivação que precisamos diariamente para seguir como mulheres, mães e profissionais. Fernanda: toda nossa admiração a você e gratidão por fazer parte do nosso grupo! Viva a Fernanda!