Ela foi dormir e meu coração deu uma apertada forte. Uma vontade muito grande de chorar, pela segunda noite seguida. Vou investigar em que período do ciclo me encontro. “Opa, sim, é isso então“. Mas o fato de sabermos a origem não impede que aconteça, só ajuda a entender que não tem nada extra, é aquilo lá mesmo mais tudo o que tem nos acontecido. Preciso de um beijo de filha. Vou até o quarto, entro, apenas poucos minutos após ela ter ido se deitar – no meu quarto, ela foi dormir na minha cama porque queria dormir comigo e eu sempre deixo quando ela pede – sinal de que ela também tem precisado de um contato físico maior. Abro a porta, ela me vê. “Oi mamãe, o que houve?“.

– Posso deitar aqui um segundinho com você?

– Claro, mãe.

Deitei.

– Você não tá legal, né? – diz a criança para a adulta.

– Não… Tô com vontade de chorar…

– Pode chorar, mãe, tem que chorar. Não pode segurar, você me ensinou.

As lágrimas vieram tranquilas, fluidas.

Ela passou a mãozinha nos meus olhos pra se certificar. Me abraçou.

– O que houve, mamãe? Por que ficou assim?

– Estou muito cansada de tudo isso, amor.

– Normal, né mãe? A gente não tá aguentando mais.

Me surpreendi. Ela ainda não tinha falado sobre isso.

– Você também está assim?

– Sim, também estou.

– Como você tá se sentindo, filha?

– Tô muito irritada. Saudade de como as coisas eram. Queria ver meus amigos, estou com muita saudade. Sinto falta de passear, de estar com outras pessoas.

– Te entendo, amor. Você acha que podemos fazer algo pra aliviar? Quer sugerir alguma coisa?

– Não tem muito o que fazer, mãe… Vamos fazer o quê? Vamos sair por aí? Não, não vamos. Tá difícil pra todo mundo. É por isso que esse pessoal tá na rua, porque eles estão se sentindo assim como você, mãe, estão agoniados. Mas eles não são como a gente, então fica mais difícil.

– E como é que a gente é?! – o espanto da adulta.

– A gente é planejada, mãe. A gente se acalma.

A gente é planejada… A gente se acalma…

– Como é isso?

– A gente se acalma, mãe. A gente encontra um jeito.

– Você acha que é isso?

– Claro que é. Porque tá todo mundo se sentindo assim como você tá. Só que não tem essa calma. A gente tem. A gente sabe porquê tem que ficar em casa. A gente sabe que é só assim que vamos passar por isso.

Choro um bocadinho mais agora. Ela me abraça e aninha a cabeça no meu pescoço. Ficamos assim por alguns minutos. Começamos a falar sobre outras questões, mais leves, mais tranquilas.

– Eu devo menstruar nos próximos dias, então fico assim mais emotiva mesmo…

– Hmmmm, deve ser isso também. Mas olha, pode chorar. Chora tudo o que precisa.

E, surpreendentemente mas nem tanto, o choro passou. Tão leve e fluido quanto chegou. Ficamos ali deitadas, as duas, conversando. Rimos, pensamos no dia seguinte, dia de faxina. Fizemos planos para a semana dos nossos aniversários. Planos do que iremos fazer, do que iremos cozinhar, do que iremos ler e os filmes que assistiremos todos os dias. Falta cerca de 1 mês, ainda, mas fazer planos nos acalma. Afinal, sobre o quê temos podido fazer planos nas atuais circunstâncias? Quase nada. É planejar sobreviver com o máximo possível de sanidade física e mental e deu.

Então dei um beijinho nela, abracei bem forte e disse que ia descer pra organizar umas coisas. Ao que ela me respondeu:

– Mãe, tenta não dormir tão tarde. Você precisa descansar.

– Prometo que irei.

Falhei na promessa. Estou escrevendo isso de madrugada. Mas me sinto melhor.

Eu não educo essa garota. Vocês não educam os filhos de vocês. Nós nos educamos, mediatizados pelo mundo. E citar Paulo Freire em meio a tudo isso me torna mais calma.

Talvez seja isso… Ter referências sólidas nos dá mais discernimento para passar por isso. E ensina as crianças a fazerem o mesmo.

Chorem aí também, se precisarem. As crianças também são nossa rede. Na verdade, talvez a maior delas.

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Parte do meu trabalho é apoiar mulheres nas mais diferentes questões das suas vidas: maternidade, educação sem violência, empoderamento, fortalecimento, carreira profissional, desenvolvimento científico. Sou Mestra em Psicobiologia pelo Departamento de Psicologia e Educação da USP, Doutora em Ciências/Farmacologia pela Universidade Federal de Santa Catarina e Doutora em Saúde Coletiva também pela Universidade Federal de Santa Catarina, com foco na saúde das mulheres e das crianças. Se você precisa de apoio e orientação, mande um e-mail para [email protected] que eu te explico como funciona a MENTORIA E APOIO MATERNO.