Já perdi as contas de quantas vezes chorei por não ter dado ao meu filho um quarto. Sim, um quarto. Daqueles bonitinhos e branquinhos, decorados com temas da infância, com papel de parede de bichinhos e uma linda e branca cadeira de amamentação.

Depois de muita lágrima escorrida, comecei a me perguntar o que eu, que só amamentei até os 3 meses, teria feito com uma cadeira de amamentação. Ou quantas vezes eu teria que ter limpado a tal cadeira branca, já que moro em uma cidade de terra vermelha – onde tudo, depois de 2 minutos em contato com o universo, acaba encardindo. Eu provavelmente a teria vendido. Logo eu, que nem tempo para lavar o cabelo tinha, teria perdido algum tempo organizando a tal venda da cadeira.

Eu poderia ter feito isso. Mas ao invés, usei uma cadeira de escritório extremamente confortável, que o meu irmão havia me emprestado – não combinava com nada, era toda preta e definitivamente não tinha nada de maternal a seu respeito. Mas essa cadeira me segurou pelas inúmeras vezes em que amamentei. Aguentou-me em todas as crises de choro que tive por não ter feito o tal quarto do bebê. Também foi parceira quando, seis meses depois do nascimento do meu filho, eu tive que aprender a costurar para segurar as pontas pós-separação. E por incrível que pareça, é essa mesma cadeira que me suporta enquanto escrevo esse texto (já que eu nunca a devolvi).

E eu só estou falando de uma cadeira.

Uma cadeira que não tem nada de especial, a não ser o fato dela nunca ter “tomado” o meu tempo – ela é fácil de limpar e o mais importante de tudo, ela se adaptou a todas as mudanças. Eu não tive que vendê-la quando o Zion parou de mamar, mesmo porque, eu provavelmente não o teria feito – tive que usar todo o meu tempo livre para lavar o cabelo, comer sentada e dormir.

A cadeira de amamentação é apenas um exemplo simplista de tudo o que eu quero dizer. Somos constantemente bombardeadas com listas e mais listas de compras, objetos para consumo e a falsa ideia de que ter é necessariamente ser. Consumimos, consumimos e consumimos – apesar dos custos, apesar dos preços, apesar da necessidade. Porém, não paramos para pensar que além de todo o prejuízo social e ecológico que estamos causando, existe um prejuízo pessoal acontecendo, particular – o prejuízo do tempo.

COISAS DEMANDAM TEMPO – seja para comprá-las, para pagá-las, para mantê-las ou até mesmo, para vendê-las.

Quando nasce um bebê, nasce também uma mãe (pelo menos é o que dizem).

Nasce uma mãe que provavelmente terá que passar horas do dia se dedicando aos cuidados dele.

E aos cuidados dela.

E aos cuidados dos outros familiares da casa.

E à sua carreira.

E a todos os objetos da casa.

E a todas as coisas do bebê.

E a todos os espaços a que pertence.

Não que seja justa essa sobrecarga de trabalho – porque ela definitivamente não é. Mas não dá para sentar aqui e fingir que ela não acontece – O TEMPO TODO – e que ela não nos enlouquece.

Foi assim que eu conheci o minimalismo. Quando percebi que eu estava prestes a surtar. No início da maternidade, você começa acumulando coisas para o bebê; depois vai acumulando contas, parcelamentos, sono, cansaço, roupas para lavar e coisas que já deveriam ter sido feitas. Depois começa a acumular palpites, informações, emails que não foram respondidos, grupos no whatsapp, comidas vencidas na despensa e roupas que não servem mais. Vai acumulando estresse e vai somando frustrações. Porque simplesmente não dá tempo – nem de fazer e nem de gerenciar tudo isso. Não dá tempo de lidar com tudo e ainda brincar com o bebê ao final do dia. Simplesmente não dá tempo. É aí que você percebe que já acumulou tanta coisa à sua volta, que para de ouvir a própria voz. Porque coisas demandam tempo – e fazem barulho.

Foi assim que eu conheci o minimalismo. Quando eu percebi que o “barulho” à minha volta era tão grande, que eu não conseguia mais me escutar. Eu não sabia mais quem eu era, do que eu gostava. Era tanta coisa para fazer, para organizar, para conquistar – que não sobrava tempo para reconhecer essa mulher que tinha nascido em mim, após a maternidade.

Então veio a grande questão: será mesmo que eu preciso de tudo isso? Será que o meu filho precisa de tudo isso? O minimalismo se define no princípio de reduzir ao mínimo o emprego de elementos ou recursos – e, se tem um recurso que é escasso na maternidade, esse recurso é o tempo. Ele é como se fosse a sua vida editada e parte da premissa de que o seu tempo é algo precioso demais para ser desperdiçado com coisas que não são essenciais para você, e que não estão alinhadas com o seu propósito, com a sua busca.

Não se trata apenas de reduzir a quantidade de coisas; trata-se de remanejar o tempo desperdiçado para algo que seja realmente significativo para você.

Talvez, valha mais a pena comprar aquele carrinho de bebê mais baratinho ou reaproveitar o bercinho usado, do que ter um monte de parcelas para pagar e passar os dias preocupada com as contas. Uma grande quantidade de brinquedos, muitas vezes implica em tempo a mais para guardá-los. Talvez fosse mais interessante ter um número menor de brinquedos e usar esse tempinho extra para brincar de pega-pega pela casa com os filhos.

Minha mãe, que é detentora de uma sabedoria imensa, sempre me diz que presença vale mais do que presente – convivendo com o meu filho, desconfio que ela esteja certa. Por aqui, eu comecei a reparar que mesmo quando havia muitos brinquedos à disposição, meu filho brincava sempre com os mesmos. Então, adquirimos o hábito de sempre separar brinquedos para doação – “para as crianças que não tem brinquedo”, como falamos por aqui. Com o tempo, o número de brinquedos diminuiu absurdamente. Hoje em dia, ele mesmo separa as suas coisas para doação e sinto que consegue passar mais tempo em cada brincadeira – como se, antes, aquele excesso de brinquedos e informação o deixasse ansioso.

Mark Zuckerberg (Facebook) e Steve Jobs (Apple) perceberam rápido a ansiedade que o excesso de coisas nos causam – se você der uma pesquisada rápida, vai descobrir que, em todas as fotos, eles estão vestindo a mesma combinação de roupas. Eles acreditavam que o gasto de tempo e de energia para decidir todos os dias pela manhã qual roupa eles iriam usar, era grande demais para algo tão desimportante.

Não é difícil começar a levar uma vida mais minimalista e nem é necessário que seja feita uma mudança radical. É possível começar aos poucos, “destralhando” um pouco de coisas a cada dia e mudando a relação com as coisas que você consome. Você pode aplicar esse “destralhe de coisas” na sua casa, nas suas relações, nas suas redes sociais, na sua agenda e na das crianças.

É incrível a quantidade de tempo que a gente perde com coisas que não são importantes para nós. Tempo que poderíamos usar para estar com os nossos filhos.

Vivemos em uma fase em que essa “abundância” é tão valorizada que, muitas vezes, sobrecarregamos nossos filhos com atividades,não deixando nem ao menos tempo para eles brincarem, para que sejam crianças. Também fico chocada com a quantidade de coisas que levamos para as nossas casas sem ao menos nos questionar se elas são realmente necessárias. Será que você precisa de tudo isso? Será que essas coisas valem o tempo que você perde com elas?

Precisamos estabelecer uma relação mais consciente com o consumo: comprar toda lista do enxoval para o bebê não vai fazer de você uma mãe perfeita – mesmo que as grandes empresas tentem nos vender essa ideia. Na verdade, é mais provável que faça de você uma mãe mais cansada e cheia de contas para pagar.

Se eu fosse criar uma lista de enxoval perfeita para uma mãe, eu diria: destralhe a sua vida, compre um shampoo 2 em 1 e abasteça seu freezer. Você não vai acreditar a falta que vai fazer ter a casa arrumada, a comida pronta e o cabelo limpo.

REFERÊNCIAS E INDICAÇÕES

Minimalism – Documentário disponÍvel no Netflix

Minimalist Parenting – Christine Koh e Asha Dornfest

Menos é Mais – Francine Jay Enough – Patrick Rhone

Vida Organizada – Thais Godinho