Em função da pandemia de COVID-19 e de todas as mudanças trazidas com ela, temos visto o debate acerca do “novo normal”, bem como clamores em defesa da volta à “normalidade”. E gostaria de convidá-las a uma reflexão mais aprofundada sobre isso.

Sobre que normalidade se fala? De quem estamos falando? Quem estamos invisibilizando? O que queremos que seja mantido? O “antigo normal” era tão bom assim? Estávamos satisfeitas? Representadas? A quem ele favorecia? Quais vidas eram desconsideradas?

Uma primeira discussão que precisa ser feita é acerca do uso que fazemos da expressão “normal”. Bastante problemática. Ela traz consigo projeções e expectativas que a estrutura social, movida por valores de mercado, deseja manter. E isso traz embutido todo um sistema de valores e moralidade.

“Normal” é frequentemente utilizado para representar algo que é comum. E aqui temos um primeiro problema: nem tudo que é comum pode ser considerado normal. É comum mulheres mães serem completamente sobrecarregadas e sobre elas recaírem a maior parte das tarefas, exigências e expectativas? Isso é normal?

“Normal” também é utilizado como sinônimo de “natural”. É natural que mulheres sejam as únicas responsáveis pelos cuidados com as crianças? Ou que mulheres pobres precisem deixar seus filhos, ou levá-los ao trabalho (às vezes à mercê de uma patroa branca que faz as unhas enquanto ele corre risco de morte), para cuidar das crianças das mulheres ricas? Isso é normal?

“Normal” também é empregado para designar aquilo que é socialmente aceitável. É socialmente aceitável que a educação e os educadores sejam vistos como cuidadores ou depositários de criança? Esse é o lugar ocupado por eles e pela escola? Isso é normal?

E poderíamos mencionar dezenas de outros exemplos em que o conceito de normalidade é aplicado de maneira prejudicial. Basta dizer, por exemplo, que a própria construção histórica da normalização da vida e dos afetos nos leva ao movimento social e científico da eugenia. Sim, veja para onde nos dirigimos. Porque para tudo o que é considerado “normal” existe um sem número de vivências e existências consideradas “anormais” e talvez poucas coisas sejam tão reducionistas e detestáveis quando assumir tal polarização como aceitável.

Fazemos um esforço descomunal para normalizar as coisas, ignorando que normalizar é, justamente, desconsiderar o diferente e aceitar aquilo que é mais frequente. Do ponto de vista matemático, falar em “normal” é considerar um padrão que se enquadra na famigerada “distribuição normal”, a qual pode ser representada em um gráfico em forma de sino invertido (tá lembrado?) chamado Curva de Gauss. Essa distribuição ajuda a definir o que é PADRÃO, o que é mais frequente. E aí vem a pergunta que eu gostaria que todos pudessem se fazer: o que é padrão pode ser considerado normal? Se você quiser responder “sim” a essa pergunta, significa dizer que tudo o que não segue o padrão é anormal, carregado de todos os preconceitos e consequências que isso traz consigo.

Numa sociedade patriarcal, machista, capitalista, que aceita que um bem tão insubstituível e imprescindível à vida quanto a água seja privatizada, que aceita que mulheres tenham vidas secundarizadas, que o mercado de trabalho ignore a existência de crianças, que sejamos sugados até a última gota do nosso sumo por uma máquina que mói pessoas, tudo isso que é considerado por tantos – especialmente por quem se beneficia de toda essa exploração – como normal, é o que precisa ser evitado. É o que precisa ser urgentemente transformado. E deixar de existir. Para que aqueles que mais sofrem e sobre quem recaem as maiores explorações possam deixar de ter sua vida difícil e sofrida normalizada. No mundo que conhecemos, são justamente as vidas que estão à margem da maior frequência, isso numa perspectiva financeira e de reconhecimento de direitos, nas extremidades da curva de “normalidade”, que mais morrem, que mais sofrem, que mais têm dificuldades para coisas básicas da vida.

Essa é a normalidade.

Não adianta florear nem usar de recursos linguísticos para subverter a lógica. A normalidade que conhecemos é doentia, cruel, por definição padronizante, esmaga pessoas e suas subjetividades.

Traz uma sensação maior de familiaridade porque é conhecido? Traz. Mas nem por isso pode ser desejável. Não é pior o desvio da normalidade. É divergente. É revolucionário. Tensiona. E nada mais necessário a uma normalidade que adoece, fere e mata do que algo que a tensiona em busca do que pode ser diferente.

É bom o que estamos vivendo? De modo algum. Mas não ser bom não justifica a busca desenfreada pelo que era já velho conhecido. Há pessoas imensamente desejosas da volta ao tal “normal”, especialmente as que se beneficiavam disso de alguma forma. Nessa quebra da normalidade que estamos vivendo, homens estão vendo como é a rotina das mulheres que precisam se virar em muitas para trabalhar, dar conta das crianças e manter minimamente um meio organizado para viver. Patrões e patroas acostumados à exploração da força de trabalho estão percebendo como dependem dos trabalhadores. Educadores estão vendo seu papel fundamental neste mundo ser subvertido para o de um youtuber a fim de justificar as altas mensalidades, nem tão justificáveis assim. Gente que sempre ignorou a importância e imprescindibilidade do SUS está vendo, talvez pela primeira vez, sua relevância. Isso não é um “novo normal”: isso talvez seja a realidade.

É chegada a hora de abrirmos mão de buscarmos um “normal” e criar uma vida nova que inclua quem está nas extremidades. Talvez haja mais representatividade, mais humanidade, mais vida real ali. A maternidade como conhecemos e vivenciamos sempre foi sofrida, solitária, sobrecarregante e angustiante. Tudo isso tido como “normal”.

Chega disso.

Nenhuma normose é libertadora. A busca por uma normalidade é uma ideologia. Ela tem cor, tem gênero, tem classe e tem endereço. Vidas fazem parte dela. Então pense muito bem quem você fere e relega à margem, mais uma vez, quando brada pela velha normalidade. Que de boa não tem nada.

O preço do nosso passeio pelas ruas e dos nossos fartos abraços sem máscara é alto para quem não tem esse direito na dita normalidade. Para muitos e muitas de nós, esse isolamento social não é novidade justamente em função da normalidade pela qual tantos clamam. Quem aceitamos deixar para trás quando desejamos que o “normal” retorne?

É preciso pensar sobre isso. Ainda que não seja confortável.

*Arte de Sulamita Batista. Para ver mais, acesse @surucuina. Via Museu do Isolamento

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Parte do meu trabalho é apoiar mulheres nas mais diferentes questões das suas vidas: maternidade, educação sem violência, empoderamento, fortalecimento, carreira profissional, desenvolvimento científico. Sou Mestra em Psicobiologia pelo Departamento de Psicologia e Educação da USP, Doutora em Ciências/Farmacologia pela Universidade Federal de Santa Catarina e Doutora em Saúde Coletiva também pela Universidade Federal de Santa Catarina, com foco na saúde das mulheres e das crianças. Se você precisa de apoio e orientação, mande um e-mail para [email protected] que eu te explico como funciona a MENTORIA E APOIO MATERNO.