Quando meu filho tinha 4 anos, seu pai decidiu mudar-se de cidade. Já estávamos separados há bastante tempo, mas mesmo que o pai dele não fizesse parte de sua vida todos os dias, eu considerei aquilo uma mudança brusca demais para encarar o processo sozinha e decidi que ele começaria um acompanhamento psicológico.

Naquele mesmo ano, eu havia acabado de ser aprovada no vestibular para o curso de Pedagogia. Já tinha diploma de jornalista e um emprego na mesma área, mas com a entrada do meu filho na escola, descobri que queria mesmo era estudar sobre educação infantil, principalmente por não estar satisfeita com as opções de escola na minha cidade. Eu já participava de um grupo de pessoas interessadas em fundar uma escola alternativa, portanto o curso de Pedagogia parecia o próximo passo lógico. 

Na primeira consulta com aquela que seria a psicóloga dele, eu, aos prantos, contei sobre a minha decisão de mudança de carreira, confessando que a carga horária dos estudos estava me deixando ainda mais tempo afastada do meu filho e, por consequência, aumentando a minha culpa.

“Eu já vi mães superprotetoras, mas uma que decide fazer um curso superior por não estar satisfeita com a escola do próprio filho acho que ganha o prêmio”.

Eu saí de lá atordoada. Nunca havia me visto como uma mãe superprotetora. Logo eu, adepta do Idle Parenting, da maternidade free-range, de uma gama de conceitos adquiridos por meio de muitos estudos para corroborar aquilo que eu acreditava ser o correto na educação do meu filho, havia recebido um golpe certeiro no meu ego – e na minha forma de maternar.

Não era a primeira vez que haviam questionado minhas decisões, mas por qual motivo essa havia machucado tanto? Será que eu era mesmo maluca e estava sozinha nessa, idealizando um mundo que se encaixasse em tudo o que eu havia lido sobre, bem… Tudo o que eu estava fazendo com meu filho até aquele momento?

INFORMAÇÃO: UM CAMINHO SEM VOLTA

Apesar do desespero momentâneo, não, eu não estava sozinha. Meu perfil é extremamente comum: com apenas um filho de uma gravidez não planejada e ensino superior completo, a informação de parentes, círculo social próximo, médicos e professores já não é o suficiente – desde a gravidez.

Fiz um levantamento informal e, nessa pesquisa, feita com 277 mães (e 2 pais), 89% das pessoas responderam que começaram a pesquisar sobre fisiologia da gravidez, parto, puerpério e amamentação ainda durante a gestação, com 68% delas tendo como fonte primária de informação os grupos virtuais.

Não existe pesquisa acadêmica publicada sobre o tema, mas parece haver uma clara correlação entre a qualidade da informação recebida por essas mães e o decréscimo do número de cesarianas no Brasil, que, em 2015 caiu 1,5 ponto percentual (pela primeira vez desde 2010).

Existem políticas públicas vigentes que influenciam essa questão que se tornou um problema de saúde pública? Sim. Mas desde quando existe política sem povo? Essas mudanças estruturais só acontecem porque há uma maior busca por informação qualificada. Ainda que as fontes sejam consideradas informais à luz da academia, 88% dos participantes da pesquisa, por exemplo, se preocupam em buscar informações que possam ser respaldadas cientificamente.

Esse critério é importante, pois em um mar de informações, muitas vezes conflitantes entre si, o respaldo científico acaba sendo uma boia de salvação, já que os questionamentos e ataques às escolhas em relação à maternidade virão de todos os lados: parentes, amigos, pediatras, ginecologistas… Até da psicóloga do seu filho.

UM LIVRO NÃO É UM ESCUDO

Super qualificada para a vaga. Era assim que eu estava me sentindo em relação à maternidade, enquanto encarava a minha estante de livros, cujos quadrinhos e romances fantásticos abriram espaço para uma prateleira quase alienígena ali no meio: do catatau “ Consultório Pediátrico” à cuidadosamente curada coleção da Sônia Hirsch, companheira de introdução alimentar e tratamentos alternativos para todo tipo de doença. Eu me sentia perfeitamente capaz de defender toda e qualquer decisão que tomava em relação à maternidade. Assim como 92% das pessoas que responderam à pesquisa que fiz.

Só que nem todo conhecimento materno vem de livros e artigos científicos – ainda bem. Ser mãe e estudar, superficial ou aprofundadamente, sobre determinados temas, não faz de mim uma especialista em nenhum deles. A maternidade é permeada por estudos, vivências, compartilhamento, costumes, crendices e instinto, tudo junto e misturado. E isso acaba se tornando um problema porque invalida meu conhecimento diante de jalecos e diplomas. É quando eu – e a maioria das mães – me torno a mãezinha.

O ROUBO DO PROTAGONISMO

Malu Moraes, assistente social e mãe de 2 filhos, conta que teve experiências extremamente diferentes com cada um. O mais velho nasceu quando ela tinha 15 anos, e sua juventude fez com que seu protagonismo fosse roubado:

“Muitas opiniões minhas não eram consideradas ou eram motivo de deboche. O ‘mãezinha’ pra lá e pra cá com tom de pena”.

Suas certezas sobre a via de parto, cama compartilhada e amamentação prolongada foram questionadas (e ignoradas) por todos ao redor, mas quando parentes desrespeitaram a decisão de educar sem violência, ela decidiu sair de casa.

Nove anos depois, nascia seu segundo filho. Munida de informações, Malu conseguiu parir. Mas nem todo vocabulário e arcabouço teórico são capazes de proteger uma mãe daquele que há de ser seu eterno nêmesis: o palpite.

“O pediatra sugeriu que eu acordasse o bebê a cada 3 horas pra mamar à noite. Tam – bém disse pra eu tomar um remédio pra garantir a produção de leite. Não fiz. Lindamente. Avaliei e optei por não seguir”.

Mas, se foi o pediatra, não é palpite, é opinião médica, correto?

Nem sempre.

MATERNAR NÃO TEM REVISÃO DE PARES?

“Quando meu bebê tinha 1 mês, chorava demais e tinha muita cólica. Fui em um pediatra já bem velho, que havia sido meu médico quando criança. Ele praticamente zombou de mim e do pai do meu bebê, dizendo que ele era assim pois nós fazíamos o que ele queria, que ele já nos manipulava. Disse que deveríamos deixá-lo sozinho no berço, chorando, até que ele aprendesse. E quando meu marido questionou ‘Quanto tempo? 15 minutos?’, ele respondeu ‘Não, pode deixar 1 hora, 2 horas…”

Esse relato é da Denise, nutricionista e mãe de um. O pediatra podia ser idoso, mas o conselho que ela ouviu é repetido por especialistas diversos, com livros novinhos em folha, técnicas e reality shows, por mais que as evidências científicas deponham contra esse método.

Ela não acatou, assim como 62% dos participantes da pesquisa, que também ignoram esses palpites acerca de condutas em relação aos próprios filhos, mesmo que venham de especialistas.

É porque além do respaldo científico, do instinto e do empirismo, a principal fonte do conhecimento materno é, no fim das contas, um grande experimento transversal e multidisciplinar revisado por pares: os grupos de apoio.

Denise é uma grande defensora deles:

“Várias mulheres chegam com histórias assim, do que os pediatras recomendam e discutimos isso, temos trocas e a mãe acaba mais consciente. Discutimos artigos do que está saindo na academia e acaba sendo praticamente um grupo de estudos, sem contar que temos mães de todas as áreas. Eu, por exemplo, sou nutricionista materno-infantil, mas em grupos que participo tem fisioterapeuta respiratória, tem doula, enfermeira… Então as trocas são muito ricas!”

Porque, antes de ser mãe, essas mulheres foram e são estudantes, pesquisadoras, profissionais: 74,2% das pessoas que responderam à pesquisa que fiz têm ensino superior completo ou pós-graduação. É possível apagar essa vivência do exercício da maternidade? É preciso fazê-lo?

A aplicação de conhecimentos empírico-acadêmicos no exercício da maternidade pode ser um divisor de águas, inclusive na carreira das pessoas responsáveis por bebês e crianças. Eu engravidei na metade da graduação, o que pareceu uma pedra em uma promissora carreira acadêmica para os meus professores. Ouvi de mais de um deles que “era muito cedo” e que minha gravidez era “um erro”. No fim das contas, foi o ativismo materno que me levou a publicar meu primeiro conteúdo relevante para o Lattes. Meu TCC (em Comunicação Social) foi sobre parto.

Meu portfólio escrevendo sobre maternidade me garantiu um emprego excelente em uma prestigiada empresa nacional de… educação!

Mas cursar Pedagogia era superproteção.

Vai entender.