Somos rodeadas por inúmeras histórias. A mim, particularmente, interessam especialmente as de mulheres e crianças. E as histórias que pipocam ao nosso redor a respeito de homens que têm filhos – que atingem diretamente as mulheres e as crianças – não são otimistas e é prudente parar com a ilusão. “Mas meu marido…”, “Mas meu amigo…” além de não serem argumentos válidos, podem ser bastante egoístas e ferir muita gente, já que dois ou três amigos nossos que são pais presentes é um número ínfimo perto das vinte ou trinta amigas e conhecidas que vivem uma maternidade difícil e sofrida em função da ausência dos homens que tiveram filhos com elas. E há uma imensa diferença entre ser um homem que teve filho e ser um pai. 

Podemos reconhecer a paternidade ativa de muitos homens. E ainda assim não cabe agradecimento, nem generalização, nem endeusamento, também por motivo de justiça com tantas outras mulheres e crianças mantidas em situações bastante difíceis especialmente porque a realidade geral e os números não são espelhos das exceções.

Minha avó dizia que só saberíamos se um pai era de fato um bom pai vendo como ele se comportaria após uma separação. Porque muitos mantêm um apaixonamento pela criança como reflexo e extensão do apaixonamento pela mulher e, findado este último, comprometido estará o primeiro. E as histórias de tantas mulheres me mostraram que, sim, isso é muito verdadeiro. 

Todas temos amigas casadas e com filhos que se sentem mães solo – e que estão em solidão demais para terem forças para promover alguma mudança.

Sou bastante apaixonada pelo pai que tive, meu amigo e parceiro até morrer. E hoje tenho entendimento de que meu mau relacionamento com minha mãe também é responsabilidade dele, que a manteve sobrecarregada e sozinha na tarefa de nos cuidar. É bastante fácil ser amado por uma filha quando a ele só coube (ou melhor, ele só se apropriou disso…) nos levar para passear e comer fora, enquanto a ela coube tudo de mais complexo que é necessário para criar as crianças, de maneira compulsória e impedindo ou oferecendo dificuldade para que ela mesma seguisse em frente com seus anseios pessoais.

Todas conhecemos inúmeros pais ausentes e pouco participativos, em número muitíssimo superior aos pais presentes e realmente envolvidos.

Todas conhecemos inúmeras histórias de mulheres mantidas em situação de tensão porque a qualquer momento o pai do filho ou da filha surta e as desestrutura emocionalmente. Mulheres que vivem em situação de sobressalto pela imprevisibilidade emocional desses homens pais. Ou que vivem pequenas violências diárias representadas por destrato, grosseria, ironias e violências sutis das quais as mulheres, em função do contato necessário mesmo após a separação em virtude dos filhos, acabam vivendo e as machucam diariamente. 

E também sei que a representação social de mulheres mães é consequência direta da representação social dos homens pais e dos papéis que as pessoas atribuem às primeiras e aos segundos. 

Nessa foto, que tirei essa semana em uma farmácia, não está escrito PAIS/MÃES/CUIDADORES E FILHOS. Está escrito “Mães e Filhos”. Itens de cuidado para crianças não são direcionados aos pais. São direcionados às mães. Porque trocar uma falda, limpar uma bunda, cuidar da higiene de uma criança e de tantas outras coisas básicas é visto não apenas como tarefa da mãe, mas como seu dever. Sua obrigação. Quem vende esses produtos sequer anuncia para os pais porque sabe onde eles estão. Estão escalando o Himalaia, indo a shows do Iron Maiden, viajando de moto, cuidando de plantas, fazendo qualquer coisa que permita que sigam sem “atrasos” com suas vidas –  e com os filhos quando dá, quando rola – e é também por isso que a mídia tradicional salafrária dá a esses homens status de heróis, porque é o que eles realmente pensam que são. Esse é o retrato social, é isso que nos mostram os dados, é isso que nos indicam as pesquisas, e eu sinto muito, muito mesmo, que nossas experiências de conhecimento de pais que assumiram de fato a responsa não represente a realidade coletiva. São casos ainda muito pontuais. E me recuso a endeusar a pontualidade quando a coletividade está sofrendo bastante com as consequências do descaso e da omissão.

Os homens que exercem ativamente a parte que lhe cabe como pais, cuidando, amando, estando presente física e emocionalmente, estando disponível física e emocionalmente, precisam ser a maioria. E não são. E estão muito longe de ser. E precisam estar ao nosso lado na reivindicação da mudança coletiva, sem melindres de “ainnn, quero ser reconhecido, quero meus 15 minutos de holofote, olha eu aqui arrasando, porque limpo a bunda deles e cozinho às segundas, quartas e sextas“.

O tal do “nem todo homem” não cabe quando tanta gente sofre por isso… Porque pai, como mãe, é uma categoria coletiva, e neste caso o coletivo se comporta de maneira ausente, egoísta, deficitária. E confio na capacidade crítica daqueles que fazem bem o seu papel de pai criador, formador e educador para saber que sua história não representa a maioria das situações vividas por filhos e filhas sem pai presente.

Então como diz a música, desculpem a cara amarrada, desculpem a falta de abraço. Conheço realidades demais pra manter o romantismo de querer homenagear os pais. Aos que estão na lida fazendo seu papel: continuem, façam mais e mobilizem os homens ao seu redor – como nós fazemos. Isso também é papel de vocês, não nossso.