Estamos todos vivendo uma situação limítrofe. Sentimo-nos amedrontados, muitos já perderam gente amada, mais ainda estão em risco financeiro, cansados, sobrecarregados, angustiados. Ninguém pensava que viveríamos uma quarentena, que precisaríamos permanecer em casa por tantos meses e que 100 mil de nós morreriam em função de um vírus em 2020. Tudo muito difícil, muito doloroso, muito desafiador.

Porém, nós, os adultos, podemos lançar mão de muitas coisas para tentar modular nossos estados afetivos e emocionais, nem que seja uma simples postagem em redes sociais, um desabafo com amigos, ou outra coisa simples porém fundamental.

Mas as crianças não.

Estão sem ver os amigos mais queridos, sem poder conviver com frequência com os avós, sem poder passear e correr livremente nos espaços públicos, sem abraçar as pessoas que amam, sem poder socializar como a infância pede. Sem aulas, sem espaço, sem suas relações. E não dispõem de muitas alternativas… E dependem de seus cuidadores… E o estado emocional de seus cuidadores recaem diretamente sobre elas.

Muitas crianças estão convivendo com abusos morais, emocionais e físicos ainda maiores do que anteriormente viviam. A violência contra a criança no interior dos lares aumentou na quarentena e, muitas vezes, justificada pela frase “Mas é que estamos muito nervosos“.

Criança não é válvula de escape, não é saco de pancada, não é bode expiatório para as dores dos adultos. Cabe a nós, adultos, irmos atrás de ajuda e mudar essa forma de lidar com elas, especialmente neste momento adverso. Não passem pano para a agressão contra as crianças. Se não naturalizamos a agressão contra as mulheres, contra os idosos, contra qualquer grupo vulnerável, não devemos jamais naturalizá-la quando as vítimas são as crianças. Já está muito difícil para elas. É dever de toda família buscar formas de tornar esse momento menos doloroso para as crianças que estão sob seus cuidados. São cinco meses de quarentena. Para as crianças, cinco meses têm um peso completamente diferente do peso que têm para um adulto. E é muito pior.

Aqui no Brasil, já são mais de 20 mil denúncias de maus-tratos e violência às crianças apenas no período da quarentena (Dados da ouvidoria do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, colhidos pelo Disque 100) e é perfeitamente esperado que esse seja um dado muito inferior ao que de fato vem acontecendo, tanto em função de subnotificação quanto em função da naturalização da violência contra a criança. E, certamente, essas denúncias de maus-tratos dizem respeito a formas extremas de violência. Se formos considerar as violências morais, emocionais e psicológicas que as crianças vêm sofrendo neste período, e que muitos cuidadores não problematizam como sendo formas de violência, certamente teríamos um número maior de denúncias de maus-tratos do que o já gigantesco número de mortos que temos aqui no Brasil.

Não existe violência mais forte ou violência mais fraca, violência aceitável ou violência inaceitável. Existe a violência e a não violência. Quando compreendemos isso, percebemos que ou aceitamos a violência ou a eliminamos totalmente de nossas vidas e práticas e, desta forma, não a justificamos quando somos nós os autores.

Muitas serão as consequências emocionais e comportamentais que todos nós levaremos desta experiência triste e, por si só, traumática que é precisar viver uma quarentena longa se quisermos proteger a nós mesmos e a toda a coletividade. O vírus causador da COVID-19 pode ser letal para muitos, tem ceifado milhares de vidas, não temos tratamento e tampouco cura. E se isso não pode ser, neste momento, mudado, nossa forma de viver e de nos relacionarmos, por outro lado, pode. Façamos, portanto, a nossa parte.

Busquem ajuda, busquem apoio, conversem com as pessoas, desabafem, cuidem de si. Não ultrapassem os próprios limites, adaptem a rotina, flexibilizem as tarefas domésticas, laborais e estudantis.

Criança nenhuma merece ser vista como válvula de escape em momentos de crise.

Acolham as crianças. Elas são o grupo mais vulnerável neste momento.

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Parte do meu trabalho é apoiar mulheres nas mais diferentes questões das suas vidas: maternidade, educação sem violência, empoderamento, fortalecimento, carreira profissional, desenvolvimento científico. Sou Mestra em Psicobiologia pelo Departamento de Psicologia e Educação da USP, Doutora em Ciências/Farmacologia pela Universidade Federal de Santa Catarina e Doutora em Saúde Coletiva também pela Universidade Federal de Santa Catarina, com foco na saúde das mulheres e das crianças. Se você precisa de apoio e orientação, mande um e-mail para [email protected] que eu te explico como funciona a MENTORIA E APOIO MATERNO.