Lembro do dia que virei a chave na porta da frente sabendo que reabri-la teria um novo significado. Era final da primeira quinzena de março. Já vinha acompanhando com extrema preocupação a chegada da pandemia ao Brasil, como sanitarista que sou, ainda mais preocupada porque sabia que não temos um governo atual alinhado com a proteção dos mais vulneráveis, nem com orientações científicas, nem com recomendações mundiais de saúde. Sabia que o baque seria grande. Virei a chave pensando: “É isso. Vamos ficar meses assim”. Eu já vinha há cerca de dois meses conversando com outras amigas e colegas da área da Saúde Coletiva sobre o imenso impacto que seria aqui, mas nada chegou perto do que de fato está sendo. Lembro que cheguei a responder, a quem me perguntava quanto tempo eu acreditava que duraria isso: “Meses. Reprograme-se para seis meses, no mínimo” e, como resposta, ouvi: “Credo, imagina, impossível ficar seis meses assim. A vida não pode parar”.

Bem, para muito mais que 70 mil de nós, brasileiros, a vida parou, sim. E não vai voltar.

Estamos completando 4 meses de quarentena no Brasil. E embora em número ainda insuficiente para o que precisaríamos ter a fim de diminuir a velocidade de propagação do vírus e, assim, impedir mortes evitáveis, muitas e muitos de nós estamos mantendo a quarentena ao máximo que nos é possível. Ainda que não estivéssemos, uma coisa é fato: a vida mudou. Não estamos mais próximos de quem gostaríamos de estar, não estamos nos visitando, nem nos abraçando. As crianças estão sem seus amigos, sem suas e seus professores, sem poder correr livremente por aí e se pendurar em todo canto como antes faziam, confinadas em casas e apartamentos. Penso nos bebês nascidos em janeiro, fevereiro, que do mundo só conhecem as poucas pessoas do entorno e certamente pensam que os demais só têm os olhos, já que a máscara recobre o restante.

Não vamos a bares. Nem a restaurantes. A ida ao mercado é rápida, envolve medição de temperatura e diversas vezes passamos álcool nas mãos. Limpamos tudo o que entra em casa, sentimo-nos desconfortáveis com outras pessoas por perto. Difícil… As mudanças não são apenas de ordem relacional. Para nós, brasileiros, são de todas as ordens possíveis. Financeira, laboral, familiar, política. E sabemos que se tornou bem familiar a sensação de que é uma porrada por dia, dados os caminhos e descaminhos políticos que estamos trilhando. Todo dia é um absurdo diferente, um ministro que entra, um ministro que sai, um ministro que mente, um fármaco que produz comorbidade indicado, depois outro, e não há planejamento de saúde, e não há leito, e não há quarentena, e há um desgoverno em curso que jamais se responsabilizou pelas muito mais que 70 mil vidas perdidas para um vírus e que poderiam ter sido poupadas.

Todo esse quadro constitui um contexto que, em psicobiologia, podemos chamar de estresse crônico imprevisível. Estresse é esse conjunto de reações e comportamentos fisiológicos e emocionais acionados em momentos em que a vida do indivíduo está sob algum risco. Ao contrário do que pensamos, ele não é ruim, pois ajuda a nos manter vivos. Porém, quando persistente, o corpo deixa de se autorregular e aquilo que nos protegeria começa a nos prejudicar. São mudanças no nível dos neurotransmissores liberados, muita adrenalina, muito cortisol, mudanças celulares e tudo isso vai alterando nossas respostas e nossa vida. Quando instalado por certo tempo, constitui-se como uma alteração crônica. E quando não sabemos de onde vem a ameaça e nem quando vem, o chamamos de imprevisível.

E é o que estamos vivendo.

E não é porque nós decidimos, racional e emocionalmente, manter a quarentena porque sabemos que é a única forma disponível de nos proteger e aos outros, que não estamos sofrendo. Pelo contrário. Além de tudo o que estamos vivendo, ainda há a frustração por vermos cada vez mais pessoas minimizando o impacto, ao mesmo tempo em que o vírus avança pelo interior do Brasil, matando e deixando sequelas físicas, sociais e econômicas.

Esse repertório estressor crônico e imprevisível está, também, na base das alterações que levam às crises de ansiedade, à anedonia (perda da capacidade de sentir prazer com o que antes nos fazia feliz) e, em alguns casos, ao desenvolvimento de transtornos depressivos. Sempre? Não, nem sempre. É possível agirmos de maneira a reduzir os danos? Sim, é. E esse é o meu objetivo com este texto: ajudar as pessoas que estão sentindo o impacto do estresse crônico imprevisível promovido pela pandemia, pela quarentena, pelo semi-isolamento social e pelas consequências do desgoverno atual a reduzirem os danos de tudo isso neste momento de tormenta que estamos atravessando.

Reduzir danos é colocar em prática ações que visam reduzir as consequências adversas – à saúde, econômicas e sociais – de determinados contextos.

O conceito surgiu associado à diminuição do impacto do uso de drogas lícitas e ilícitas, mas pode ser perfeitamente aplicado ao momento que estamos vivendo. Sim, é preciso manter o isolamento social, é preciso manter a quarentena, são as únicas medidas de fato disponíveis para que não nos contaminemos nem contaminemos os demais. Mas, reconhecendo que a longa duração destas medidas também traz consequências físicas e emocionais, especialmente associadas ao estresse crônico imprevisível, podemos agir reduzindo seus danos. E isso pode, sim, ser feito dentro de casa, mantendo o máximo de isolamento que pudermos manter.

Do ponto de vista do estresse crônico imprevisível e da neurociência, podemos lançar mão de algumas práticas que atuam no sentido de reduzir os danos de tudo o que estamos vivendo, diminuindo a frequência ou prevenindo as crises de ansiedade e, especialmente, prevenindo a anedonia. E uma dessas práticas, que mostra resultados cientificamente muito positivos, é o enriquecimento ambiental. Se você já trabalhou com animais ou cuida de animais, talvez já saiba do que estou falando.

Enriquecimento ambiental é tornar o ambiente que estamos vivendo – nossa casa, nossa rotina – rico, atrativo, acolhedor, estimulante. E aí vale muita coisa.

O enriquecimento ambiental está nos objetos, nas cores, nos sons, nos cheiros, em novos alimentos ou novas formas de preparar os mesmos alimentos de sempre. Está na mudança dos móveis. Na descoberta de coisas novas. No desbravar de novos interesses. Em mexer com plantas. Em pintar ou mudar uma ou várias paredes. Em interagir com outras pessoas de formas diferentes. Em mexer o corpo de uma maneira nova. Em sentir um pouco mais de conforto com as coisas que você já tem. Em aumentar a diversidade das suas atividades intelectuais, se você for chegado nisso. Objetos: fazer coisas novas a partir de outras coisas, transformar o que se tem, dar nova cara ao que já existe. Cores: começar a usar roupas coloridas quando nunca se usou, ou um batom no meio do dia, pintar uma parede com uma cor diferente, pintar um móvel pálido e desanimado, coitadinho, mudar um tapete, pendurar um tapete na parede, pintar o rosto das crianças, deixar que elas passem os dias maquiadas ou fantasiadas. Sons: ouvir mais música, prestar atenção nas conversas das crianças, montar playlists de acordo com seu humor, trocar playlists criadas entre amigos, cozinhar ouvindo uma música que te anime, dormir ao som de um instrumento. Cheiros: de quais cheiros você gosta, quais cheiros te confortam? Óleos essenciais, um sabonete cheiroso, um creme hidratante, incenso, um cangote de filho ou de outro amor. Novos alimentos e/ou novas formas de prepará-los: a internet é o limite sem limites, receitas, novidades, fazer muito do pouco, fazer diferente do básico, experimentar gostos e texturas novas. Arraste os móveis, mude os móveis de lugar. Afinal, se o seu vizinho de cima pode ouvir sofrência durante um dia inteiro, você pode arrastar uns móveis por meia hora para ter um ambiente mais acolhedor. Mude a cama de lugar. Coloque o colchão no chão, mude o ponto de vista, jogue umas almofadas naquele cantinho tristonho.

Descubra coisas novas, em você e na vida.

Plante, plante, plante (essa semana, soube que uma amiga que mora numa kitnete transformou parte do quarto dela numa área de cultivo; escolheu espécies boas para o repouso e voilá, adorei). Pinte um móvel, uma parede, um pedacinho de teto, pergunte aos seus amigos quem tem tinta sobrando, assista a uns tutoriais, siga uns perfis de faça você mesmo sem gastar o equivalente a um rim e faça. Converse com seus amigos por vídeos, por textos, por áudios, faça surpresas. Beije na boca com mais frequência, se houver uma boca beijável e antifascista próxima a você. Abrace mais, seus filhos, seus amores, quem estiver em isolamento com você. Dance. Não apenas quando ninguém estiver olhando, mas sempre. Dance. Alongue-se. Faça um escalda pés. Uma automassagem. Durma do lado contrário da cama. Leia um livro que você não leria pois piegas. Assista a um filme que não assistiria pois sem saco.

Enriqueça seu ambiente.

Não é um detalhe. É preventivo. Estimula seu cérebro e seus afetos. Te faz ver as coisas por outros ângulos. Estimula a neuroplasticidade, ou seja, nascem novos neurônios para te dar uma forcinha nesse momento desafiador. Neuroplasticidade te ajuda a melhor se adaptar ao novo ambiente, às novas circunstâncias, a formar novas memórias positivas e adaptativas, facilita seu aprendizado daquilo que irá te ajudar. Ajuda a tornar seu organismo mais resiliente.

Quando estamos em sofrimento, esquecemos que habitamos um corpo que é muito potente. Ele se molda aos desafios que vivemos. Mas é preciso dar uma forcinha. Mude a rotina. Mude as práticas. Faça coisa que você consideraria sem propósito. E, tão importante quanto, estimule as crianças a fazerem o mesmo, envolva-as nas atividades. Isso também é ciência, ciência a favor da humanidade, ciência para persistirmos, ciência para resistirmos, ciência para melhorar vidas.

A imagem que ilustra este texto eu retirei do filme “Minha mãe é uma sereia”, que continua a ser um dos principais filmes da minha vida. A cena em que elas dançam na cozinha, bem como a música desta cena, me inspira todos os dias. A música é essa abaixo. Invoque Santa Cher na Terra e dance com seus amores. Você incluída.

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Parte do meu trabalho é apoiar mulheres nas mais diferentes questões das suas vidas: maternidade, educação sem violência, empoderamento, fortalecimento, carreira profissional, desenvolvimento científico. Sou Mestra em Psicobiologia pelo Departamento de Psicologia e Educação da USP, Doutora em Ciências/Farmacologia pela Universidade Federal de Santa Catarina e Doutora em Saúde Coletiva também pela Universidade Federal de Santa Catarina, com foco na saúde das mulheres e das crianças. Se você precisa de apoio e orientação, mande um e-mail para [email protected] que eu te explico como funciona a MENTORIA E APOIO MATERNO.

Enriqueça seu ambiente. Dentro e fora de você.