Dois garotinhos lindos. Na camiseta de um, Capitão América. Na de outro, Homer Simpson. Um devia ter 5 anos, o outro, 7. Os dois com um celular na mão, que pertence ao mais novo (ou aos pais dele, que não consigo avistar). Eis que eles começam a dançar e cantar muito alto uma música que não consigo identificar de primeira. Eles cantam cada vez mais alto, a fim de receber atenção. Dou, porque, afinal, toda criança merece atenção. E então eu ouço:

– “Cinco bichinhas foram passear, chegou Bolsonaro e TRÁ TRÁ TRÁ”, com gesto de arma na mão e rindo muito.

Tomei um susto tão grande, fiquei tão impactada, que perdi o fôlego. Não conseguia nem pensar direito. Como duas crianças tão jovens, tão novinhas, tão incrivelmente potentes, que podem se tornar pessoas incríveis a lutar pela melhoria do mundo, podem ter sido levadas a achar que é aceitável uma abominação, uma violência, um desrespeito, uma coisa horrenda como essa, essa homofobia medonha, vergonhosa, criminosa? Que tipo de cuidadores têm essas crianças, que certamente naturalizam e incentivam um comportamento miserável desses?

Eles continuaram a cantar, como se fosse a música mais normal e natural do mundo. E talvez para eles infelizmente seja mesmo…

Consegui vencer o impacto que senti e disse, olhando para o menor:

– Essa música não é nada legal, meu amor. Não é nada legal, sabia?

Eles pararam de cantar na mesma hora. Minha vontade era ir até eles e dizer que eles não sabiam o que estavam cantando, que não era uma coisa boa pra ninguém cantar. Era triste, era violento, eles não mereciam estar ouvindo e vendo aquilo, mereciam estar se divertindo, correndo e brincando ali na rua fechada para o trânsito e liberada para as pessoas, aproveitando uma noite fresca, ouvindo a música bacana que tocava ali naquele momento, fazendo amizade com outras crianças. Mas como os cuidadores dessas crianças interpretariam um gesto de cuidado e empatia como esse? Certamente muito mal. Afinal, “o filho é meu e eu estrago como quiser”. Uma família que alimenta algo tão cruel e violento certamente também é assim. Engoli a vontade de dar a eles um pouco do amor que dou à minha filha, ensinando que a violência é desprezível e que as crianças têm o direito absoluto de serem protegidas de coisas como essa.

Olhei ao redor e não vi os pais. Chamei o rapaz do restaurante e perguntei se ele sabia quem eram os pais deles. Ele me contou. Um, filho do dono do restaurante da frente. O outro, filho de um funcionário de um estabelecimento próximo. Nenhum dos dois adultos estavam ali naquele momento, as crianças estavam sozinhas com o celular. Ele perguntou porquê e aproveitei a relativa proximidade que tenho com ele, por ser uma frequentadora costumaz do local, e disse:

– Meu querido, eles estão assistindo a coisas completamente inadequadas naquele celular.

– Como o que?

– Como coisas que eu jamais diria à minha filha, que está aqui, ouvindo. Violentas. E estão aqui, sozinhos.

Poucos minutos depois, apareceu o pai de um e o levou embora. Fiquei olhando ainda porque, afinal, crianças tendem a seguir o que veem em casa. E ele não deve estar vendo coisas boas, do contrário teria condições de saber que uma coisa como essa é abominável. Quis ter a certeza de que aquela criança estava segura, pelo menos fisicamente – já que mental, emocional e moralmente já mostra sinais de danos.

O que presenciei – e infelizmente muitos de vocês também já presenciaram – foi uma explícita amostra da naturalização da violência. Da homofobia. Do descaso e da violência contra a infância. Da irresponsabilidade dos cuidadores. Do pouco caso não apenas com o desenvolvimento emocional e cidadão dessas crianças, mas também com toda a coletividade. O deprezo pela infância – ainda mais que por todas e todos.

Esses dois garotinhos, se não houver nenhum tipo de intervenção que os mostre que desejar a morte de outras pessoas é cruel e errado, que nutrir o preconceito e a discriminação pela orientação sexual das pessoas é cruel e errado (além de desumano), que achar natural e normal a violência é muito cruel com eles mesmos enquanto crianças, têm imensas chances de crescerem e se tornaram os homofóbicos violentos do futuro. Desses que a gente encontra às dezenas pelas ruas: que batem, que agridem, que xingam, que matam quem não ama quem eles acham que devem amar.

A homofobia não é inata, não nasce com a gente. Nenhum bebê nasce sendo homofóbico, nenhuma criança é naturalmente homofóbica. Ela aprende a ser. Com a família, com a mídia, com os adultos do entorno, com o meio cultural onde vive – e, infelizmente, também com os representantes políticos que elas têm. Quando quem deveria dar o exemplo de humanidade, empatia, cordialidade, cidadania, respeito e direitos estimula a morte, a violência, a agressão gratuita, as crianças crescem achando que tudo bem ser assim. Que tudo bem ser um agressor de outras pessoas ou, quem sabe até, um assassino de outras pessoas.

O homofóbico de hoje foi, muito provavelmente, a criança estimulada a odiar desde cedo. A quem foi naturalizado esse comportamento vil. Foi o menino que ridicularizou o amigo que usou uma roupa rosa. Que foi hostil com o amigo que é mais sensível. Que constrangeu o amigo que não quis passar a mão na mocinha que acabou de conhecer, ou obrigá-la a fazer o que ela não queria fazer. Que xingou a amiga quando ela não quis fazer o que ele queria que ela fizesse. E isso porque tudo está interligado, faz parte de um pacote terrível de deseducação emocional e de vulgarização da infância.

Quem cria crianças assim tem que assumir: está ensinando seus próprios filhos a matar.

Quem cria crianças assim, na verdade, não tem o menor preparo emocional, psicológico e intelectual para criar uma criança para ajudar a melhorar o mundo.

Quem cria crianças assim é, na verdade, um contraventor, um criminoso, que viola desde sempre os direitos universais da criança e dos seres humanos.

Dói em mim, uma pessoa que luta por uma infância respeitada, protegida e acolhida, saber que milhares de crianças estão sendo estimuladas a um comportamento terrível como esse. Dói profundamente em mim saber que estamos diante de uma terrível fábrica de homofóbicos. Você, que acha tudo bem criar assim, é o pai, mãe, avó, tio dos homens que ocuparão manchetes futuras nos jornais por terem violado outras pessoas. Apenas porque cresceram achando que tudo bem fazer isso.

É violento expor a criança à homofobia. É desumano incentivar a criança à homofobia. É vexatório e constrangedor estimular que a criança odeie e deseje a morte de outras pessoas.

Sinto muito por vocês, meninos queridos. Eles não sabem o que fazem…

“É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor”.

Capítulo II – Artigo 18 – Do Direito à Liberdade, ao Respeito e à Dignidade – Estatuto da Criança e do Adolescente

“Verificada qualquer das hipóteses previstas no art. 98 [medidas de proteção à criança e ao adolescente quando seus direitos forem ameaçados ou violados], a autoridade competente poderá determinar, dentre outras, as seguintes medidas:

I – encaminhamento aos pais ou responsável, mediante termo de responsabilidade;

II – orientação, apoio e acompanhamento temporários;

IV – inclusão em serviços e programas oficiais ou comunitários de proteção, apoio e promoção da família, da criança e do adolescente;

V – requisição de tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico, em regime hospitalar ou ambulatorial.

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Parte do meu trabalho é justamente isso: apoiar mulheres mães para terem vidas mais plenas. E faço isso da perspectiva de 20 anos de formação como neurocientista e doutora em Saúde Coletiva com foco nas mulheres. Se você precisa de apoio, entre em contato pelo e-mail [email protected] que eu te explico como funciona a MENTORIA E APOIO MATERNO.