Amamentar e desacelerar as mudanças climáticas. Aleitamento materno e a proteção ambiental. Dar de mamar e cuidar do planeta. Em plena quarentena em função do avanço da COVID-19 especialmente sobre os países mais vulneráveis, entre os quais nos enquadramos, estamos promovendo discussões sobre proteção ambiental mundial na Semana Mundial de Aleitamento Materno 2020 (#SMAM2020). Este é o tema deste ano: ajudar as pessoas a compreenderem a ligação entre amamentação e a proteção contra mudanças ambientais e climáticas.

Sim, há uma dimensão profundamente ecológica no aleitamento materno e que raríssimas vezes é abordada como deveria ser. Então quero, com esse texto, unir três temáticas necessárias e urgentes: COVID-19, mudanças climáticas e aleitamento materno. Dialogam? Sim, muito. Precisam dialogar. Você já pensou sobre isso? Então vamos pensar juntas.

Em 2019, tivemos uma perda mundial de florestas tropicais 3% maior que em 2018. Uma perda que representa, em termos territoriais, tamanho superior ao de muitos países (dados do Global Forest Watch). Junta-se a isso o relatório Global Warming of 1,5 o.C, divulgado pela ONU, o qual mostra que o planeta já ultrapassou o aumento de 1 oC em aquecimento e que, a partir de agora, sentiremos cada vez mais o impacto maléfico da mudança climática. É aqui que entra a COVID-19 (e os mais de 100 mil brasileiros mortos até o momento, considerando a subnotificação). Em oito meses de pandemia, temos discutido bastante sobre como as mudanças climáticas favorecem o aparecimento de pandemias como a que estamos vivendo. Vejam: as atividades humanas estão acelerando o aquecimento planetário; espécies animais precisam migrar de seus territórios a fim de buscar outros locais menos quentes; esse movimento migratório faz com que espécies antes desconectadas se encontrem, favorecendo a disseminação e a troca de microorganismos que causam doenças. E estamos falando apenas do movimento migratório dos animais não humanos impulsionado pela mudança climática. Devemos falar também de um outro movimento: a do animal humano em direção a habitats de animais silvestres e selvagens. Nossa atual forma de viver, predatória e consumista, está tornando possível, e tornará cada vez mais, o surgimento de doenças para as quais não temos cura e com alto poder de letalidade. E a COVID-19 está aqui, entre nós, para não nos deixar mentir… Então você pode se perguntar: reduzir mudanças climáticas pode diminuir o risco de aparecimento de novas endemias e pandemias? Sim, com certeza. É também sobre o que nós, cientistas, estamos alertando há algumas décadas: é urgente frear as práticas que impulsionam o aquecimento global. Doenças vão surgir se não fizermos isso. E vão nos matar. A todos nós? Sim, mas especialmente aos que são mais pobres e mais vulneráveis. É isso o que estamos vivendo desde dezembro de 2019 e sem expectativa de controle.

Certo, entendemos até aqui. Agora, onde entra o aleitamento materno nisso?

É urgente que todos nós, em conjunto – sociedade civil, científica, política, nações – passemos a tomar decisões ambientalmente acertadas. Precisamos desenvolver, usar, aplicar, reforçar, escolher práticas de vida e existência que sejam renováveis, ambiental e humanamente seguras, cujo exercício não gere impactos negativos ao ambiente, não use embalagens, não gere desperdício, não polua ainda mais o meio, não exija utensílios plásticos, emborrachados ou de silicone, não incentive o desmatamento para abrir pasto para a pecuária – uma das principais atividades aceleradoras do aquecimento global.

Então agora vem a pergunta redentora: aleitamento materno faz tudo isso? FAZ.

Amamentar um bebê é ambiental e humanamente seguro. Não gera impactos negativos ao meio. Não exige utensílios plásticos. Não gera desperdício. Não consome energias não renováveis. Não incentiva o desmatamento para abrir pasto para a pecuária. Não estimula o consumo. Pronto. Ligamos COVID-19, às mudanças climáticas, ao aleitamento materno. Mas agora falta o que, para mim, é o ponto mais caro, mais relevante, mais fundamental na discussão impulsionada nesta SMAM: as mulheres.

Não reforço o coro dos que depositam sobre as mulheres ainda mais obrigações, deveres, expectativas além da descomunal e desproporcional carga que já nos é imposta. Não reforço o pensamento de que mulheres precisam amamentar porque precisam ajudar a reduzir o impacto ambiental. Fazer isso seria cruel, desumano e, sem dúvida, patriarcal – nada de novo no front nem abaixo da linha Equador, apenas mais do mesmo. Minha via de acesso é outra. Ela passa pelo fortalecimento das mulheres como eixo primordial para combater as mudanças climáticas. E não sou utópica ao reforçar esse pensamento, na verdade apenas sigo como base o relatório do Fundo para População das Nações Unidas (UNFPA).

Não precisamos amamentar para reduzir o aquecimento global. Nós já fazemos isso apenas por sermos mulheres: o relatório do UNFPA mostra que nós já contribuímos menos para a mudança climática – embora sejamos as mais afetadas pelo clima. A desigualdade de gênero é um dos principais determinantes justamente do aquecimento global. E somos as principais vítimas das consequências do aquecimento: perdemos empregos em pandemias, temos a agricultura e as atividades básicas de subsistência impactadas e temos que lembrar que todos esses efeitos afetam principalmente as mulheres mais pobres.

Então, não se trata de incentivar mulheres a amamentar para que nós, mais uma vez, possamos salvar o mundo – esse peso já nos é compulsório e não queremos mais um. Trata-se de criar formas de vida, políticas públicas, medidas de saúde, situações trabalhistas, garantia de direitos, regulamentação da propaganda de fórmulas, incentivo à amamentação na primeira hora de vida, licenças parentais e tudo o mais que diz respeito ao favorecimento do aleitamento materno.

Assim, meus caros, o foco desta discussão sobre como a promoção do aleitamento materno pode frear as mudanças ambientais e climáticas não somos nós, as mulheres, com o suposto “dever” de amamentar. O foco é todo o nosso entorno, para que se conscientize, se prepare, se adapte, se politize e se engaje para promover essa atividade. E é também por isso que as principais organizações sociais, políticas e de saúde no mundo afirmam: investir no fortalecimento e no empoderamento das mulheres, incentivar que elas ocupem a dimensão política, garantir a elas o acesso à saúde, educação e reduzir a pobreza associada à desigualdade de gênero é uma das principais medidas para frear as mudanças climáticas. E o que é a promoção do aleitamento materno além de tudo isso?

Amamentar um bebê em uma época de pandemia, de aquecimento global, de evidenciação das consequências da política neoliberal, é mais do que aleitamento: é um ato de resistência. E é dever de todas e todos os que estão ao redor da nutriz apoiá-la para que assim consiga.

Não é sobre nós, mulheres.

É sobre todos vocês que aí estão, colocando a culpa uns nos outros e se abstendo de nos apoiar em ações que, sim, mudam o mundo. Assumam suas posições nestas fileiras. Apoiem as mulheres em todas as frentes para que possamos amamentar.

Nota:

Os objetivos da Semana Mundial de Aleitamento Materno 2020 são:

  1. Informar as pessoas sobre as relações existentes entre aleitamento materno e mudanças ambientais e climáticas
  2. Estabelecer a amamentação como uma decisão climática inteligente
  3. Envolver indivíduos e organizações nesta pauta para aumentar o impacto positivo
  4. Fortalecer ações para melhorar a saúde do planeta e das pessoas através do aleitamento materno como uma decisão climática inteligente

Na imagem: mulheres mexicanas amamentam em frente a instituições culturais na Cidade do México pelo Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, novembro/2019.