– Mãe, por que tem um presente gigante ali em cima?

– Porque faz parte da decoração, filho. Da decoração de Natal. Nessa época as pessoas acham que tem que dar presentes, e as lojas aproveitam isso e incentivam ainda mais para que elas comprem mais e mais presentes.

– Mas por que TEM-QUE?

– Não tem. Mas esse é um jeito que o comércio usa para ganhar mais dinheiro no final do ano.

– Que estranho isso!

– É.

Estávamos almoçando numa praça de alimentação de um shopping. Ele tem 5 anos. E, para ele, o Natal era uma época de comer panetone, ver papais noeis passeando pela cidade, ficar acordado até tarde e ver a família inteira.

Era. Agora tem um quê de esperar “qual a surpresa, qual o presente, quem vai me dar o quê”. E foi observando esse comportamento de “Quando fulano vem? Que surpresa eu vou ganhar?” que percebi que precisava jogar umas pedras no meu próprio telhado – que é de vidro sim!
 

EDUCAÇÃO PARA O CONSUMO, O QUE É?

Para falar sobre como educar para o consumo precisamos entender de onde vem a necessidade dele. Conversei com a psicopedagoga Ana Flávia Guida Teixeira, em Brasília, sobre a vontade que as pessoas têm de dar presentes às crianças, e de onde ela vem.

É interessante notar o consumo com uma necessidade relacionada ao desejo. E quando dou um presente também está embutido nele este desejo. O que está me movimentando nesta direção do desejo? Ao consumir, eu posso estar sendo mobilizada por propagandas, modismos, por uma compulsão. O consumo tem muitas facetas”, ela diz.

Na relação familiar pais/cuidadores + crianças é importante lembrar que a prática educa. Então, antes de sair ditando regras sobre quem pode ou o que pode ser dado às nossas crianças, vamos olhar para o nosso próprio umbigo? Quantas vezes você compra por compulsão? Comprar faz você feliz? Adquirir um item só porque ele está em promoção, por exemplo, sem que haja uma real necessidade dele na sua vida é um ato comum? Para mim, ainda é. E é contra isso que tenho tentado brigar – comigo mesma, claro.

E nesse processo de reeducação pessoal, vou percebendo o quanto deixamos nossas crianças serem influenciadas pelo nosso comportamento.

Fulano tem, eu também quero” (sobre isso, a Ligia acabou de publicar um texto fresquinho na plataforma que você lê aqui).

Então, educar a criança para o consumo pode ser definido, por base, como um processo familiar. Se a sua família já está nessa porque você foi educado assim, que bom! Se não, sempre é uma boa hora para reavaliar conceitos. E consumos.


OS PARENTES E OS PRESENTES

E quando falamos em relações de parentes e amigos próximos com as nossas crianças, que desejo seria esse? Que eles tenham os brinquedos e jogos da moda, a roupa de marca, ou que possuam algo que faça os pequenos lembrarem de quem os presenteou.

Ana Flávia acredita que um dos principais pontos para se estabelecer uma relação construtiva é trabalhar os limites.

“Nossos filhos sempre vão estar envoltos em uma educação diferente da que eles têm em casa. E aí entramos em um outro aspecto, que também é muito difícil, que é dizer não”. O limite, ela diz. E que, acredito eu, tem que vir acompanhado da conversa. Dos motivos. Das crenças que cada família tem.

Aqui em casa trabalhamos com combinados. Para quase tudo. Um não toma refrigerante, o outro ainda nem come doce. Os amigos e parentes que cuidam deles com a gente sabem disso, e respeitam. O combinado entra no âmbito dos presentes – embora nessa área nem sempre se cumpra, e é aí que a conversa com eles precisa do reforço.

Mas, e quando vem aquele presente em forma de brinquedo? Muitas vezes, um brinquedo que nem mesmo a gente compraria, por acreditar que não é a hora ou não deveria fazer parte do cotidiano deles?

Aí entra uma grande participação dos pais. Como eu vou usar isso que chegou na minha casa? Por exemplo, vocês têm um acordo de não ter eletrônicos e os avós dão um eletrônico. Você combina com a criança que o jogo só pode acontecer quando os avós – que deram o presente – estiverem presentes. Essa regra pode ser fundamental para a educação de como lidar com aquilo que ela recebe de fora”, sugere Ana Flávia.

Eu acredito que esta pode ser uma forma também de se fortalecer o vínculo com quem presenteou, e não com o presente em si.


O VALOR EMBUTIDO NO QUE SE DÁ

Outro dia, um tio me perguntou se poderia dar para as crianças um presente bacana neste Natal: uma pista de carrinhos com controle remoto para que eles brincassem juntos. “Eles vão amar!”. Não tenho dúvidas, mas respondi a ele o que costumo responder sempre que me perguntam com o que podem presentear meus filhos: seu tempo é mais valioso.

Ao invés de gastar o dinheiro no brinquedo, que eventualmente vai ficar entulhando mais um canto do quarto, que tal pegá-los aqui e levá-los para passear? Vão ao parque, comprem pipoca, brinquem nas barraquinhas de ganhar brindes, jantem e tomem um sorvete de sobremesa. Porque eu quero que meus filhos se lembrem do que fazem COM as pessoas, e não do que GANHAM delas. O tempo que os meus familiares e amigos dedicam às minhas crianças é impagável!

Nisso, eu e minha entrevistada concordamos plenamente. Ela diz:

O consumo está numa dimensão diferente do fazer. Ele é pobre. E se o presente que a gente dá não vem revestido de um esforço, um investimento pessoal – fazer a caixa, o embrulho, o cartão, ele não vai ser lembrado por muito tempo. A parte fácil é comprar o presente. A personificação é o mínimo que a gente pode fazer para que ele seja marcante”.


DIÁLOGO ABERTO

Nem toda família tem diálogo aberto. Nem todo avô ou avó respeita as decisões dos pais. Nem todo mundo entende que a educação das crianças é um processo coletivo. Mas deixar claro o que pode e o que não pode é, potencialmente, o primeiro passo para que mal-entendidos não se repitam. Este diá- logo pode ser fundamental especialmente quando a situação financeira dos cuidadores é diferente da das pessoas que cercam a família. A gente não tem, mas a vovó tem. Papai não pode, mas o vovô pode. Mamãe não compra, vou pedir para a titia. Olha que confusão!

Explicar para as crianças que o “não ter” não está necessariamente relacionado ao “não poder comprar”, mas ao “não precisar possuir” pode ser um bom caminho. Mostrar que elas podem fazer aquilo que queremos que os parentes façam: doar tempo ao invés de dinheiro! É aniversário de alguém? Vamos fazer um cartão! Lá vem o Natal, vamos produzir lembrancinhas para a família inteira com aquela sucata acumulada no lixo seco. A internet está recheada de ideias baratas e divertidas. E, com isso, a gente, mãe e pai, ganha o quê? BINGO! Mais tempo com eles, que vai ser lembrado com muito mais relevância do que aquele brinquedo desembrulhado em meio aos outros na noite de Natal.


ENTÃO, É NATAL…E PÁSCOA, DIA DAS CRIANÇAS, ANIVERSÁRIO ETC

Estamos falando do Natal, mas a ideia vale para o ano inteiro. E, olha, essa é uma das partes mais difíceis de educar sob interferência alheia, na minha opinião. Porque estamos sendo constantemente bombardeados pelo comprar, pelo possuir, pelo ter. E quanto mais nossas crianças crescem, e frequentam ambientes externos à nossa casa, mais elas estão sujeitas ao uso desses verbos tão poderosos.

Empoderar as crianças também para o não consumismo é uma tarefa que DEVEMOS abraçar. Muito mais do que economia financeira, incentivo à vida off line ou fortalecimento de vínculos, reduzir o consumismo é estar atento aos nossos recursos naturais, ao consumo consciente, à mudança de hábitos e incentivo ao pequeno produtor. Educar para o consumo é educar para o fortalecimento de uma sociedade mais alerta.
 

Agradar a todos ou educar para o consumo: como lidar com a interferência familiar em época de natal?

Sete ideias boas para substituir os presentes no natal
Vamos construir uma lista de Natal? Neste fim de ano vocês podem:

1. Fazer vales-brincadeiras para os parentes. O tio ganha 30 minutos para ensinar a fazer um bolo, a avó ganha 30 minutos para ler juntinho e por aí vai.

2. Pintar cartões com as mãozinhas dos pequenos, ou aquelas letrinhas ensaiadas dos pré escolares. Já pensou encontrar isso daqui a alguns anos e lembrar que ele escrevia o G ao contrário ou o M de cabeça para baixo, que delícia?

3. Sugerir que as crianças ganhem vale-tempo. Uma ida ao cinema, um passeio no parque, uns minutos num pedalinho, um jogo de futebol, aulas de bicicleta, de vôlei, de natação.

4. Façam caretas para as fotos. Nada mais sensacional que uma careta no porta-retratos da sala.

5. Pegar aquelas canecas que estão no fundo do armário sem uso, deixar as crianças desenharem com caneta permanente e encher de bombons, embrulhar num papel colorido e olha quanta alegria em forma de reciclagem! 

6. Dar mudas de plantas. E fazer um acordo coletivo de cuidado: tem que visitar a madrinha para regarem juntos, cuidar juntos, ver crescer.  

7. Bolos em miniatura também costumam fazer sucesso. Ou brigadeiros. Ou biscoitos. Algo que as crianças possam participar ativamente do processo de produção e embalagem pode ser a lembrancinha perfeita para uma noite de Natal. “Lembra daquele Natal que eu fiz a sobremesa, mãe?”.

Quem precisar de ajuda pode correr no site do Movimento Infância Livre de Consumismo – uma rede fantástica que debate o consumo voltado para a infância na nossa sociedade.