Guerreira. Lutadora. Corajosa. Forte. Heroína. Esses termos são facilmente aplicáveis a toda mulher que consideramos empoderada. Etimologicamente, empoderar significa “dar poder a (algo ou alguém)”. Mas, o que seria esse poder?

O conceito de poder está intimamente ligado à capacidade de ação, oposto à passividade. E a passividade é uma das muitas características atribuídas às mulheres, ao lado de doçura, gentileza, carinho e delicadeza. O sexo frágil. Então buscamos, como sociedade, empoderar mulheres de maneira a fugir dessas características, com base naquilo que consideramos poderoso (ou empoderador?): aquilo que é atribuído ao gênero masculino.

Desde a primeira infância, é possível notar uma segmentação clara de produtos oferecidos a cada gênero. Roupas, brinquedos e conteúdo midiático fortemente permeado de signos que perpetuam o maniqueísmo força/fragilidade. No entanto, a problemática é um pouco mais sutil do que a geladeirinha de plástico rosa e o carrinho azul, ou as fantasias de princesas versus as fantasias de super heróis, porque ela não é solucionada ao inverter apenas as cores dos objetos, mas em entender os valores que cada um deles passa.

Algumas das características positivas associadas aos homens são independência, racionalidade e estoicismo. O oposto disso? Alguém emotivo, desequilibrado e dependente. Para grande parte das pessoas, isso representa o que é ser mulher. Do Thomas, o Trem ao Relâmpago McQueen, a mídia marketada para o gênero masculino exalta a velocidade, a eficiência e a competitividade. Os super-heróis são fortes porque eles derrotam os vilões com seus super-poderes, em batalhas épicas com lasers e explosões pelos céus.

Por entender que cavaleiros e heróis são mais poderosos do que princesas e fadas, temos uma facilidade muito grande em aceitar meninas que os incorporem, mas existe uma barreira muito maior a ser rompida para que meninos cisgênero se apropriem de traços considerados femininos. Se uma menina se diz super-heroína, dizemos que ela é empoderada. Se um menino se diz uma princesa, questionamos sua sexualidade.

NEM AS MULHERES QUEREM SER FEMININAS

Em sua dissertação de mestrado, a pesquisadora canadense sobre gênero e mídia Anita Sarkeesian, analisou a representação de mulheres consideradas poderosas na TV, cinema e jogos. De acordo com ela, “as personagens femininas vistas como fortes e empoderadas personificam muitos dos traços considerados masculinos, mantendo uma divisão patriarcal dos papéis de gênero”.

No documentário The Mask We Live In, o sociólogo Michael Kimmel constrói a ideia de que para começar uma briga em um parquinho, basta perguntar a um grupo de meninos quem, dentre eles, é a mulherzinha. Ao acusar o outro, o menino busca se livrar desse estigma porque nada pode ser tão ruim quanto ser associado a algum estereótipo feminino.

“A ideia de ser percebido como fraco, como uma mulher, começa cedo na infância e nos persegue por toda a vida”, ele diz.

De que adianta dizer às meninas para lutar como uma garota se os homens, detentores dos poderes simbólicos dentro do sistema social que é o patriarcado, se recusam a aceitar qualquer coisa associada ao feminino como positiva e não querem ser vistos como mulheres? Nessa lógica, ninguém quer reproduzir padrões de comportamento femininos. Se associar a esses valores diminui o sujeito e o coloca à mercê de violência.

Por isso, a indústria de entretenimento já entendeu que o conceito de empoderamento a partir de valores masculinos vende, e se apossou dessa narrativa. As princesas ganham personalidades distintas, os grandes títulos de quadrinhos ganham protagonistas femininas e até a Barbie ganha uma versão super-heroína. Criam-se cursos de desprincesamento, que acabam por afastar as meninas de tudo o que é associado ao feminino e, por consequência, perpetuar a noção de que essas características são negativas.

COMBATER FOGO COM FOGO? 

No entanto, ao dar às personagens femininas as mesmas características exaltadas em personagens masculinos – e em homens em geral – perpetuamos o conceito atual de uma masculinidade agressiva, violenta e tóxica. Enxergar a violência como uma característica patriarcal e um aspecto dessa masculinidade tóxica não quer dizer que mulheres não possam ser violentas, mas quer questionar a violência como meio de resolução de conflitos.

Ainda no documentário The Mask We Live In, a cientista política Caroline Heldman explica que “a masculinidade não é orgânica, ela é reativa. Ela é uma construção social. É uma rejeição de tudo o que é feminino”. Ao adotar esses valores para empoderar as meninas, estamos combatendo fogo com fogo.

Os efeitos da exaltação de qualidades como força e competitividade são fortemente sentidos pelas crianças a partir do momento em que a segregação de gênero se faz mais presente em suas vidas. É em média a partir dos 6, 7 anos que as meninas passam a duvidar de suas capacidades intelectuais e acreditar que são menos capazes que seus contrapartes masculinos. Mas é nessa idade também que os meninos começam a receber mais diagnósticos de hiperatividade e passam a identificar que falar sobre seus sentimentos – ou até demonstrá-los – é sinal de fraqueza.

Enquanto estamos extremamente preocupadas com a autoestima das meninas e queremos mostrar que elas podem tanto quanto os meninos, esquecemos de mostrar que os meninos não precisam ser tão… meninos. Eles não precisam ser os mais rápidos, não precisam ser os mais fortes, mas, sobretudo, eles não precisam rejeitar qualquer característica associada à feminilidade.

DESCONSTRUÇÃO GENERACIONAL 

Diante desse cenário, acaba sendo mais fácil para homens que têm filhas brincar de bola com elas do que brincar de boneca com seus filhos. É mais fácil colocar uma menina no judô do que um menino no ballet.

Criar meninos fora do conceito de masculinidade tóxica exige uma desconstrução dos homens que o cercam. É preciso mais do que ver os pais dividindo a carga de serviço doméstico, é preciso que aos meninos seja permitido chorar, sentir medo, dançar. Parar de exigir deles que provem a todo instante a sua masculinidade.

E, principalmente, parar de tentar provar a sua a todo momento.